• ENTRE TANTOS, MAIS UM CONTO DE NATAL

    edmar-noel_1995Arte do saudoso jornalista e chargista EDMAR VIANA feita para ilustrar este poema em 31 de dezembro de 1995, jornal Tribuna do Norte (RN), coluna Osair Vasconcelos.

     

    Chegou dezembro, boas festas, ano bão…
    A musiquinha infernal
    Dos pinheirinhos comprados
    Nos camelôs de Natal.

    Chegou dezembro, boas festas, ano bão…
    A fúria consumista
    Açoita o cristão e o pagão
    Com muito dinheiro no banco
    Ou “nada no bolso ou nas mãos”.

    Além do perdularismo compulsivo,
    A troca anual de forjadas amabilidades
    Nos ambientes de trabalho
    E nas reuniões de parentelas
    Com contrapesos, agregados e boas biscas
    É o que tem me levado a uma postura enviesada e arisca.

    Ah, sim. Tudo bem.
    Sem traumas e sem Freud,
    Sem Marx e Nietzsche também.

    Já fiz jus aos meus presentes
    Todos os anos a fio.
    A alegria incontida
    Ao acordar ressaltado
    Espiando embaixo da rede
    O presente desejado
    Ao lado da poça de mijo
    Do menino pobre e mimado.

    E lá estava ele,
    Reluzente e tão sonhado,
    O meu caminhão da “Pilar”,
    Bege e azul cobalto
    Carregado de biscoito
    E de alegria sem fim.

    Sacos de pipocas recortados
    E pregados na janela
    Com a figura do “bom velhinho”
    Que a professora Hilda
    Chamava de Santa Clause.

    Os autos natalinos,
    A cultura popular dos bambelôs,
    Bois Calembas, fandangos, cheganças,
    Pastoris e seus palhaços safados
    Cantando maliciosamente a mestra
    E a contramestra, dos cordões azul e encarnado:

    – “Abana, abana, pastora
    Com o seu assanhador “.

    A castanha tirada escondida
    Deixando a marca na crosta
    Do bolo pé-de-moleque.

    A aura de menino rejubilado,
    Satisfeito e cheio de gosto
    Ao ver o presépio exposto
    Na vitrine do grande magazine
    Com direito a areia de praia
    E espelho simulando uma lagoa.

    Na porta da loja
    Eu mostrava aos clientes,
    Todo orgulhoso e sorridente:

    – “Olha gente,
    Fui eu que fiz
    O presépio de Jesus
    Do Novo Continente!”

    O anonimato não me conformava
    E no beco onde morava
    Eu era mesmo um sucesso
    Perante João Cabeção,
    Seu irmão, Assis Butico,
    Zinho de Duó, Chico Cearense
    E o briguento Rei Furico.

    Mas o meu presente impossível
    Só constava dentro do saco
    Do Papai Noel dos ricos:
    Uma monark brasiliana,
    Da cor de coco queimado,
    Ou uma bela caloi de aro 26.

    Na impossibilidade do mimo
    Contentava-me com os “cambões”
    Da marca “mercswiss”, de freio contrapedal,
    Alugadas a Luiz Grilo, lá na “praça do governo”,
    Nos termos da Cidade Alta.

    À meia-noite,
    O meu pai a contragosto,
    Atiçado por mamãe,
    Saía de casa puto
    Pra ver a missa do galo
    No convento capuchinho.

    Mas eu queria mesmo
    Era ouvir a banda dos fuzileiros
    Na retreta do coreto.

    Tudo isso num mundo de odores,
    Presentes, sorvetes, cremes mágicos,
    Chocolates, sapatos e roupas novas também.

    O sapatinho na janela,
    Isso daí nunca botei…
    Achava coisa de boyzinho otário
    E nesse tempo eu já ia sozinho pras Limpas
    Assistir a festa dos Santos Reis.

    Curtia mesmo era a inveja dos colegas,
    Cujos pais eram gente “mais ou menos”
    (Como dizia minha mãe)
    Mas não dispunham do preço de custo
    Para obter as várias cores e padrões de camisas
    Das linhas banlon e fio helanca
    Adquiridas por um subgerente de loja.

    Eis aí o meu lenitivo todo ano posto à prova:
    Os boys de bicicleta e eu de roupa nova!

    Árvore de natal lá em casa não se armava.
    Meu pai dizia que não tinha dinheiro pra gastar
    Com bolas multicores e luzes caras
    Pra decorar “pé-de-pau” de gente metida a besta.

    Um dia, na teimosia,
    Enfeitei um garrancho seco
    Tirado do oitão da casa
    Do velho Chico Padroeiro.

    Apesar de não dispor de bolas coloridas,
    Construí a minha “árvore europeia”
    Envolta em chumaços de algodão
    Tendo por adereços caixas de fósforos vazias
    Embrulhadas em papéis dourados,
    Verdes, vermelhos, azuis e prateados.

    Papai sorriu irônico
    Após os elogios de mamãe
    Ressaltando a “astúcia” do menino.

    Ancho da vida,
    Com o coração pulando de contentamento
    E os olhos que nem dois coriscos natalinos,
    Corri para chamar “Nardinha”,
    A galeguinha de nome esquisito

    Cujo nome de verdade
    Era mesmo Evionardes.

    De short rosa desbotado
    E cabelinhos dourados
    Sentenciou a menina
    Pela qual estava doido de paixão:

    – “Seu besta, disse a musa,
    Aqui em Natal não cai neve não!”

    Desta forma, muito antes de John Lennon
    Anunciar seu veredicto,
    – O fatídico “The Dream Is Over”
    Naquela manhã de dezembro,
    Numa sala de mosaicos multicoloridos
    (Iguais a minha memória de hoje),
    O natal se acabou.

    No velho rádio valvulado
    Um reclame publicitário
    Com o paspalhão vermelho
    (Que até então era meu aliado)
    Parecia “mangar d’eu”
    Pelo “fora” que levei
    Da menina raio de luz
    E de nome invocado
    Que nunca mais encontrei.

    Ho! … ho! … ho! … ho! …

    Minha mãe veio correndo
    Ao escutar a pancada da minha mão
    Batendo com raiva no tampo do rádio
    Como se tivesse levado um choque
    Ao proferir
    , de “boca cheia”, o indefectível palavrão:

     
    – “
    Papai Noel filho de rapariga!!”

     
     
    GM
     

    6 responses to “ENTRE TANTOS, MAIS UM CONTO DE NATAL”


    • Zoroaster

      Oi Pai!
      Lembro-me quando você chegou com o jornal e me mostrou esta poesia, inclusive a arte também, para minha surpresa a poesia já se tranformou em uma “bela ninfetinha” de 14 anos..
      Grande abraço

    • É sim, Zora.
      Esta crônica poética vai completar 14 anos. Por isso resolvi republicá-la, não pela efeméride natalina em si, mas pelo orgulho de ter um texto ilustrado pelo grande EDMAR VIANA, um dos mais talentosos chargistas do Brasil. Portanto, um privilégio de poucos.

      Abração, filho.


    • Albertina

      “Poesia é quando uma emoção encontra seu pensamento e o pensamento encontra palavras”. Eu completaria esse pensamento dizendo que escrever é quando uma emoção encontra pensamento e o pensamento encontra palavras.
      Medeirinhos você é um poeta de mão cheia.
      Cheiro

    • Caro Graco,
      apesar de não te conhecer pessoalmente quero te dizer que é uma honra poder contemplar uma obra tão expressiva como é seu blog. Acredito que você consegue, como poucos, tocar na beleza do cotidiano e na alma do seu povo. Deve ser por isso que identifico-me demais com suas publicações e citações. Há tempos acompnho esse seu cantinho, o qual passei a chamar de meu. Espero que nunca perca o gás e prossiga com inspirações e companhias como as do grande EDMAR VIANA. Um 2010 porreta pra nois tudo.
      Abraços, hd.

    • Valeu, Hudson!
      Obrigado pela generosidade do comentário.
      Sempre que der na telha, apareça. Será sempre bem-vindo.
      Grande abraço.

    • Aê, Tinininha!
      “Das vêis” se pega na veia e a “mão cheia” leva a fama!! Rs rs rs…
      Bjo


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