• 20 DE JULHO DE 1969

     

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    A CONQUISTA  DA LUA E DA RUA


    Decolando do bar

    Tenda do Cigano
    na Praia do Meio
    um jovem paisano
    às notícias alheio
    sobe a travessa 25 de maio
    sem cavalo baio
    cruzando as ruas
    Monte Carlos e do Motor
    até o topo da balaustrada
    da Avenida Getúlio Vargas
    com a Nilo Peçanha
    tendo como referência
    o antigo Hospital Miguel Couto.


    Só na manha

    turbinado com vinho Jurubeba
    misturado com cachaça Murim
    e um bom manga rosa alagoano
    os olhos trincados como os de um peba
    segue em órbita, na sua Apolo 11
    o ‘onze’ ou rolé a pé das noites altas
    chispando pela Praça Cívica
    (que teimosamente sempre chamei
    de praça Pedro Velho
    ou praça das tartarugas
    da minha infância de calças curtas
    tão distante das minhas atuais rugas)


    Desabotinado

    o boy lombrado
    descia contornando
    o muro do Marista
    rente à Vila Lustosa
    até a baixada do Baldo.


    Engrenava na subida

    da Praça Tamandaré
    até a Igreja de São Pedro.


    Reacendia a baga

    no portão do cemitério do Alecrim
    os ‘ômis’ passavam e encaravam ruim
    debochando e xingando o hippie
    de alma penada… e o maluco sentado
    nos batentes da calçada
    devolvia o chiste na mesma pisada:


    – “Não tem flagrante, aspirante!”


    E seguia em frente

    pilotando e dando risada
    no seu módulo lunar pelo Alecrim
    seu berço de nascença.


    Ele era Armstrong, Collins e Aldrin.


    Parava na Praça do Quitandinha

    Pra comer ‘meio cachorro quente’
    e dar uns tapas num café preto
    o combustível necessário
    para chegar lá no alto
    da rua Amaro Barreto
    bifurcamento com a sua rua matriz
    a velha avenida doze ou rua dos Paiatís.


    Descia o vale da doutor Mário Negócio

    dando vista pra Baixa da Coruja
    onde moravam o vapozeiro Dagoberto
    e o pinta braba Bronzeado. Só no ócio.


    Atravessava os trilhos da Guarita

    E lá estava, na porta da água furtada
    o negão Mão de Onça: sempre na fita
    e atento nas quebradas.


    Era mais um baseado

    até a alunissagem
    no mar da tranquilidade.


    As parcas televisões em p&b ligadas

    e as rádios narrando a aventura
    dos pioneiros cosmonautas imortais
    marcando os seus rastros numa camada
    de fino pó da lua de São Jorge.


    Enfim, eu também pousava

    descendo a travessa Mário Lira
    na casa dos meus pais!


    (GM)

     

    ☆☆☆


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