• POEMA PARA ESSES TEMPOS DE INTERNET…

    O poeta Lêdo Ivo nasceu no dia 18 de fevereiro de 1924, em Maceió (AL) e faleceu na madrugada deste domingo, 23 de dezembro de 2012. O poeta estava em Sevilha, na Espanha, a passeio com a família. Após um jantar, ele se sentiu mal e morreu nos braços do filho, o pintor Gonçalo Ivo, que mora em Paris.

     

    A QUEIMADA

    Queime tudo o que puder
    as cartas de amor
    as contas telefônicas
    o rol de roupas sujas
    as escrituras e certidões
    as inconfidências dos confrades ressentidos
    a confissão interrompida
    o poema erótico que ratifica a impotência
    e anuncia a arteriosclerose.

    Os recortes antigos e as fotografias amareladas.
    Não deixe aos herdeiros esfaimados
    nenhuma herança de papel.

    Seja como os lobos: more num covil
    e só mostre à canalha das ruas os seus dentes afiados.
    Viva e morra fechado como um caracol.
    Diga sempre não à escória eletrônica.

    Destrua os poemas inacabados, os rascunhos,
    as variantes e os fragmentos
    que provocam o orgasmo tardio dos filólogos e escoliastas.
    Não deixe aos catadores do lixo literário nenhuma migalha.
    Não confie a ninguém o seu segredo.
    A verdade não pode ser dita.

     
    Lêdo Ivo.


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