• O HOMEM E SUA HORA

    Numa data como a de hoje o Brasil perdia, aos 32 anos de idade, um de seus mais talentosos poetas e também jornalista, crítico literário e excelente tradutor, principalmente da obra do poeta americano Ezra Pound. Mário Faustino dos Santos e Silva (foto), nascido em Teresina (PI), em 1930, exercia o cargo de editor-chefe da Tribuna da Imprensa, jornal que foi comprado pelo Jornal do Brasil, quando em viagem para Nova York, como correspondente internacional do jornal, não consegue chegar ao seu destino, pois morre num acidente aéreo sobre a Cordilheira dos Andes, nos arredores de Lima (Peru), na madrugada de um fatídico 27 de novembro de 1962, como ‘premonitoriamente’ denunciava em alguns de seus versos e em muitos outros poemas de O Homem e Sua Hora, seu único livro publicado em vida.

     

    MÁRIO FAUSTINO

    Revista Argumento / Trecho de um texto de Heloisa Seixas – O estranho poder de premonição – ou seja lá que nome tenha – está presente, em maior ou menor grau, na vida dos que lidam com qualquer forma de arte. Mas talvez poucos exemplos sejam mais contundentes do que o do poeta e crítico Mário Faustino. O único livro de poemas que ele deixou, já trai no título (O homem e sua hora) a preocupação com a morte, um de seus temas centrais. Mas Faustino foi muito além. Ele, cujo corpo jovem seria destroçado no ar, na explosão de um avião sobre os Andes, na madrugada de 27 de novembro de 1962, fez de certas imagens uma obsessão – imagens que remetem, inevitavelmente, ao tipo de morte que o esperava.

    Quando Faustino morreu, seus leitores se espantaram ao ver como ele parecia prever nos mínimos detalhes o que aconteceria, principalmente nos versos de dois de seus poemas mais famosos: “Mito” e “Sinto que o mês presente me assassina”. No primeiro, ele dizia:

    “Os cães do sono ladram
    Mas dorme a caravana de meu ser;
    Ser em forma de pássaro
    Sonora envergadura
    Ruflando asas de ferro sobre o fim
    Dos êxtases do espaço,
    Cantando um canto de aço nos pomares
    Onde o tempo não treme,
    Onde frutos mecânicos
    Rolam sobre sepulcros sem cadáver;
    E sonho outros planaltos
    Por mim sobrevoados na procela;
    E sonho outras legendas
    Em mim argamassadas pelo vento (…)
    Globo de ásperos pólos,
    Continentes de medo
    E mares onde o sangue é trilha e nódoa (…)
    E enquanto nuvens quedam
    De incenso carregadas, de semente
    Levanto-me e estrangulo
    O ato de nascer que me divide
    Em morna derrisão
    Disforme difidência de um presságio (…)
    Os cães do sono calam
    E cai da caravana um corpo alado
    E o verbo ruge em plena madrugada cruel
    De um albatroz zombado pelo sol”.

    Em “Sinto que o mês presente me assassina” – poema cujo título é por si só inquietante –, Faustino é ainda mais direto:

    “Sinto que o mês presente me assassina,
    Corro despido atrás de um cristo preso,
    Cavalheiro gentil que me abomina
    E atrai-me ao despudor da luz esquerda
    Ao beco de agonia onde me espreita
    A morte espacial que me ilumina”.

    Morte que continua sendo anunciada em outros poemas, como aquele que dá título ao livro:

    “Eis a quinta estação, quando um mês tomba,
    O décimo terceiro, o Mais-que-agosto,
    Como este dia é mais que sexta-feira
    E a Hora mais que sexta e roxa”.

    E mesmo nos poemas que parecem tratar de questões diversas o leitor é atingido de quando em quando por pontadas de origem imprecisa, como se a morte se infiltrasse nos versos.

    “Fiz de um saco de prata o meu campo de sangue,
    Meu desespero é brejo onde os restos borbulham”

    Ou “Lá vi o pó do espaço me enrolando
    Em turbilhões de peixes e presságios”.

    Ou ainda:

    “(…) bestas, bestas
    Aladas pairam, à hora de o futuro
    Fazer-se flama, e a nuvem derreter-se
    Em cinza de presente (…)”.

    São trechos que parecem permeados de premonições, às vezes perdidos no meio dos versos, como : “no céu donde a noite rui”, “mortalhas no oriente, e no nascente” ou “o arcanjo incendiado”. Reduzindo ainda mais, a sensação inquietante parece mesmo emanar de palavras soltas, como “morte”, “noite”, “cinzas”, “pássaros”, “alado”,  que surgem e ressurgem nos poemas de Faustino, reforçando a impressão de um presságio.

    Num de seus muitos estudos sobre a obra do poeta, de quem foi o maior amigo e responsável pela sobrevivência de sua memória, o crítico Benedito Nunes observa que “na concepção poética de Mário Faustino há uma permanente interação entre a poesia e a realidade”. Segundo Nunes, o poeta só admite uma substância, a palavra, através da qual “o mundo se verbaliza e o verbo se ‘mundifica’”. E é esse arco ligando poesia e realidade, tão transparente em Faustino, que talvez explique as antevisões contidas em seus versos. Como se, rompidas as barreiras de tempo e espaço, passado e presente, papel e real, a morte do poeta existisse desde sempre. E, mais do que isso, como se ele estivesse tão consciente da própria morte que dela se regozijasse. O que talvez explique os belos versos finais de seu poema “Romance”, em O Homem e Sua Hora:

    “Tão fino o Anjo, e a Besta
    Onde montei tão serena,
    Que posso, Damas, dizer-vos
    E a vós, Senhores, tão servos
    De outra Festa mais terrena

    – Não morri de mala sorte,
    Morri de amor pela Morte”.


  • “MICOLELIS E O PROJETO MICO NELES”

    O cientista petista e torcedor do ‘Parmêra’, Miguel Nicolelis, com Lulla no IINN – Instituto Internacional de Neurociência de Natal-RN.

     

             CIENTISTAS CRITICAM MEC POR DAR 247 MILHÕES A PROJETO DE NICOLELIS

    FOLHA DE S. PAULO / UOL (por Maurício Tuffani em colaboração para a Folha) – O Ministério da Educação deve receber nos próximos dias um abaixo-assinado de cientistas contrários ao envio de R$ 247,6 milhões a um projeto idealizado pelo neurocientista Miguel Nicolelis.

    A ação é encabeçada pelos professores Paulo Saldiva (USP) e José Antonio Rocha Gontijo (Unicamp). Eles são coordenadores de dois dos três grupos de ciências médicas da Capes (Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), órgão subordinado ao ministério.

    O envio do abaixo-assinado foi decidido na semana passada pelos participantes do Encontro Nacional de Pós-Graduação em Medicina, em Criciúma (SC). Os organizadores dizem que são mais de cem assinaturas, mas ainda não divulgaram a lista completa.

    “Não temos nada contra Nicolelis, mas questionamos a destinação de um recurso dessa magnitude sem uma aparente avaliação de mérito, a qual todos nós nos submetemos”, afirma Gontijo.

    O valor será destinado para a construção, até 2017, do Campus do Cérebro em Macaíba (RN), idealizado por Nicolelis. Por lá, deve haver pesquisas sobre reabilitação e outras aplicações da neurociência e cursos de pós-graduação, atividades já desenvolvidas pelo IINN (Instituto Internacional de Neurociência de Natal), fundado por ele.

    “A destinação de recursos dessa monta a uma iniciativa pontual é extremamente grave e merecedora de esclarecimentos”, diz o documento.

    “Tal precedente é visto como mais grave ainda por viver-se um momento em que há problemas de financiamento de projetos de pesquisa importantes no país.”

    O apoio do MEC foi estabelecido em julho por meio de um contrato de gestão firmado com a UFRN e com o Instituto de Ensino e Pesquisa Alberto Santos Dumont, ao qual é ligado o IINN, cujo conselho de administração é presidido por Nicolelis. Tal iniciativa não necessita, segundo previsão legal, da abertura de um edital prévio para o recebimento de projetos.

    O projeto já recebeu do MEC R$ 29,7 milhões do montante a ser desembolsado até julho de 2017. O ministério tem outros contratos semelhantes: esse valor corresponde a cerca de um quinto dos R$ 139,2 milhões onerados neste ano na rubrica “pesquisa e desenvolvimento nas organizações sociais”, segundo dados do governo federal.

    A assessoria do IINN informou que o campus atrairá muitos profissionais nos projetos de educação, saúde e pesquisa – em 2017, serão 552.

    Suzana Herculano-Houzel, professora de neurologia da UFRJ e colunista da Folha, disse não conhecer os aspectos jurídicos do caso, mas afirmou ser a princípio favorável à destinação da verba.

    “O Brasil precisa desesperadamente de investimentos dessa magnitude, e não essa pulverização de recursos mantida pela política de agradar com migalhas o maior número possível de pesquisadores.”

    PREVISTO EM LEI

    O Ministério da Educação informou que a implantação do Campus do Cérebro é uma ação do IINN em parceria com a UFRN.

    “As negociações para a celebração do contrato de gestão seguiram os trâmites legais; ele foi aprovado técnica e juridicamente pelos ministérios da Educação e do Planejamento”, afirmou em nota.

    O modelo de contrato de gestão com organizações sociais, entidades sem fins lucrativos, está previsto em lei e é adotado desde 1998 pelos entes públicos para a prestação de certos serviços públicos.

    A transferência de recursos é feita a partir da pactuação de metas e resultados. Não é preciso fazer licitação ou concorrência.

    O ministério não informou metas e prazos previstos no contrato de Natal.


  • POEMA PARA ENCHER O SACO

                              O mito de Sísifo

         O Tonel das Danaides

     

    Pra quê Tântalo esforço, seu moço?
    Se Sísifo foi além das pedras, ao tonel das Danaides,
    gêmeas danadas, sem zelo algum com vodu de noviça,
    que enxugam gelo, escovam urubu e enchem linguiça!


    (GM)


  • DE LETRAS E ARGILAS (*)


    O poeta Manoel Wenceslau Leite de Barros, mais conhecido como Manoel de Barros, nasceu no Beco da Marinha, em Cuiabá, estado do Mato Grosso, no dia 19 de dezembro de 1916 e veio a falecer na data de hoje, 13 de novembro, em Campo Grande / MS.

    Seu pai, João Venceslau Barros, famoso capataz de Mato Grosso, decidiu erguer uma pequena fazenda quando o garoto tinha apenas um ano de idade, no coração do Pantanal.

    A criança, apelidada de Nequinho por sua família, passou sua infância sentindo a textura da terra nos pés, brincando e correndo entre personagens que definiriam sua obra, os currais e os objetos que chamavam a atenção do futuro escritor. Em idade escolar, foi para um colégio interno em Campo Grande e posteriormente para o Rio de Janeiro. Estudar não calava fundo na mente inquieta do menino até ele entrar em contato com os livros do Padre Antônio Vieira e descobrir que não precisava assumir nenhuma responsabilidade com a prática da verdade na literatura, e sim com a verossimilhança.

    Aos 19 anos, Manoel de Barros escreveu seu primeiro poema, e a partir de então sua veia poética não mais deixou de pulsar. Ele conheceu a liberdade criativa ao mergulhar em Une Saison en Enfer, de Arthur Rimbaud, pois aí se deu conta do rico material sensitivo à disposição do poeta, pronto para despertar e se traduzir nas páginas em branco. O escritor teve sua fase de militância política, engajou-se no Partido Comunista, e deixou de ser preso graças ao seu primeiro livro, que não chegou a ser publicado, pois a única cópia foi confiscada por um policial no lugar do jovem Manoel. Mas abandonou o Partido quando se desapontou profundamente com Prestes. Neste momento, decidiu voltar para o Pantanal.

    Ainda não estava pronto, porém, para criar raízes neste local, pois o mundo o aguardava. Passou um período na Bolívia e no Peru, depois partiu para Nova York, onde residiu por um ano, estudando cinema e pintura, povoando assim sua poesia com as imagens mais ricas e distintas. Ao retornar para seu país, o poeta conhece Stella, sua futura esposa. Hoje eles continuam juntos, em Campo Grande, ao lado de uma família linda, com três filhos, Pedro, João e Marta, e sete netos.

    Depois de tantas aventuras, formado em Direito em 1949, no Rio de Janeiro, o poeta finalmente se decide pelo Pantanal e lá se fixa, tornando-se fazendeiro como o pai. Sua primeira obra nasceu no Rio de Janeiro e lá despertou para o público, há mais de sessenta anos, e foi batizada de Poemas Concebidos sem Pecado, lançada em pequena tiragem, com a ajuda de um grupo de amigos. Foi o primogênito de tantos outros que viriam.

    O poeta ganhou prêmios importantes, como o Prêmio Orlando Dantas, em 1960, doado pela Academia Brasileira de Letras, pelo livro Compêndio para Uso dos Pássaros. Sua obra posterior, Gramática Expositiva do Chão, foi contemplada com o Prêmio da Fundação Cultural do Distrito Federal, enquanto Sobre Nada ganhou outra honraria, desta vez de contexto nacional. Texto de Ana Lucia Santana no blog www.infoescola.com

     

    Moldando a duras penas
    Como Vitalino, do barro,
    Manoel fez seus poemas.

    (Graco Medeiros)

     


    Nota do SDV ( * ): Manoel de Barros, “o poeta que arrancava versos do chão”, segundo Millôr Fernandes, afirmou certa vez que o anonimato foi “por minha culpa mesmo. Sou muito orgulhoso, nunca procurei ninguém, nem frequentei rodas, nem mandei um bilhete. Uma vez pedi emprego a Carlos Drummond de Andrade no Ministério da Educação e ele anotou o meu nome. Estou esperando até hoje.”


  • A MÃO DE SARNEY E A MÃO BOBA DE DILMA…

    A Presidente Dilma Rousseff posando na foto com Fafá de Belém (que pose!), Erasmo Carlos, Roberto Carlos, Caetano Veloso e a ex-ministra da cultura, Marta “Tiroteio” Suplicy.

     

    DILMA E A MÃO DO PMDB

    ESTADÃO / Blog de José Roberto de Toledo – A mão direita, trêmula, move-se com o indicador esticado até o primeiro botão, no alto à esquerda, do teclado da urna eletrônica. Titubeia por um instante e desce para a tecla imediatamente abaixo. Pressiona-a e vai para o botão à direita. Aperta novamente: 4 + 5. Aparecem na tela da urna as fotos de Aécio Neves (PSDB), sorridente, e de Aloysio Nunes (PSDB), de terno preto. A mão desce até a tecla verde e confirma: “Fim”.

    Quando o dono da mão deixa a cabine de papelão, vê-se pregado na lapela do seu paletó caqui o adesivo da campanha de reeleição de Dilma Rousseff (PT). Na foto, a presidente está ladeada pelo seu candidato a vice – e presidente do PMDB -, Michel Temer. A cena está registrada em vídeo e publicada no Youtube.

    A assessoria do senador José Sarney (PMDB) nega que a mão pertença ao ex-presidente da República – apesar das evidências em contrário no vídeo da TV Amapá. Um assessor disse ao repórter Chico de Gois, de O Globo, que isso é “jogo sujo” da política local. Lembrou que a maior diferença da petista sobre Aécio foi na terra natal dos Sarney, o Maranhão: 79% dos votos válidos.

    O episódio veio a público, através das redes sociais, no mesmo momento político em que o PMDB de Sarney e Temer impingia à presidente a primeira derrota na Câmara após sua reeleição. Não foi uma derrota qualquer nem o momento foi fortuito. Os peemedebistas escolheram tema e ocasião para maximizar o simbolismo. Cancelaram um decreto presidencial que cria formas de participação e representação popular fora do Congresso.

    Foi um recado de que o PMDB pretende manter o comando da Câmara e do Senado na próxima legislatura e de que não aceita compartilhar seu poder com mecanismos de consulta popular – como por exemplo fazer uma reforma política via plebiscito, como a presidente propôs em seu discurso de vitória.

    Por um acordo que parece ter caducado, PT e PMDB se alternariam na presidência da Câmara. Os petistas elegeram a maior bancada, mas os peemedebistas se articulam com outras siglas para montar um bloco, passar o PT e fazer Eduardo Cunha presidente em 2015.

    O presidente comanda a pauta de votação. Foi o atual, Henrique Eduardo Alves (PMDB), que pôs para votar o projeto que anula o decreto de Dilma. Ele perdeu a eleição para o governo do Rio Grande do Norte e, pela primeira vez em quatro décadas, não terá uma cadeira na Câmara a partir do próximo ano. Não pretende ficar sem gabinete, porém. Foi seu jeito de exigir compensação.

    Esse foi só um round da luta por nacos de poder em curso na Brasília pós-eleição. Aproveitando o discurso de divisão do País e o crescimento eleitoral da oposição, os peemedebistas estão tentando estender para os próximos quatro anos de governo Dilma o papel de fiel da balança que exerceram na campanha, quando alugaram seu tempo de propaganda na TV à campanha petista.

    Demonstrações de força agora são uma maneira de alavancar maior participação na distribuição de ministérios e cargos nas estatais e afins. Esses cargos implicam a gestão de contratos e verbas, obviamente. É a velha tática de criar dificuldades para vender facilidades. A mão que bate é mesma que afaga.

    Importa pouco o que o cidadão Sarney faz na intimidade da urna – mesmo que essa intimidade e o direito ao sigilo do voto tenham sido quebrados pelas câmeras de TV. O cidadão pode votar de acordo com sua preferência pessoal. Já o político tem que cumprir acordos, principalmente aqueles com quem não simpatiza, mas, por conveniência, apoia. Por comparação aos demais caciques peemedebistas, o ex-presidente é dos mais leais a Dilma.

    Ele não será mais senador em 2015. Seu afilhado Edison Lobão não deverá ser mais o ministro das Minas e Energia. Por isso, não seria surpresa se Sarney emplacasse outro ministério no quarto governo do PT – mesmo que sua mão tenha votado no PSDB.

    PS: o último parágrafo deste texto foi alterado depois de ter sido publicado. A versão original era assim:
    Ele não será mais senador em 2015. Seu afilhado Edison Lobão não deverá ser mais o ministro das Minas e Energia. Por isso, não seria surpresa se Sarney virasse ministro da Cultura no quarto governo do PT – mesmo que sua mão tenha votado no PSDB.


  • “E ASSIM SE PASSARAM 100 ANOS” (*)

    Meu pai, Luiz Cleodon de Medeiros (Currais Novos-RN, 5 de novembro de 1914 / Natal, 1 de julho de 1993). Foto de sua identidade militar no período da intentona comunista, ‘quartelada’ acontecida em Natal no ano de 1935, iniciada no 21º Batalhão de Caçadores (BC), onde hoje está localizado o colégio estadual Winston Churchill, na Avenida Rio Branco, bairro da Cidade Alta. Segundo suas memórias, registradas por Luiz Gonzaga Cortez e Homero Costa, consta ainda na minha memória, citada por meu pai, uma fala do Coronel Portela, oficial superior que presidiu, em Recife, o interrogatório dos militares sublevados do 21º Batalhão de Caçadores de Natal. Como foi se registrando, no decorrer da audiência, muitas desculpas esfarrapadas, negaceios e alegações de não participação direta de alguns praças envolvidos na insurreição, pelo medo óbvio de uma severa pena e do que viria pela frente (falava-se até em fuzilamento sumário dos revoltosos), o soldado Cleodon falou todos os seus passos durante o movimento. Terminado o depoimento, o Coronel comentou, irônico: “Soldado, se esse seu depoimento for realmente verdadeiro, o senhor fez a “Intentona” praticamente sozinho!” Coragem e aversão à mentira eram duas de suas principais virtudes.

     

    Nascido no regaço do Sítio Trangola, em Currais Novos (RN), criado nas ribeiras do Riacho Fechado e pelos tabuleiros da Furna da Onça, 4º filho de Cleodon Bezerra de Medeiros e Maria Felisbela das Neves, numa prole de 11 filhos, Luiz Cleodon de Medeiros, meu pai (o ‘praça’ da foto acima), genitor de mais três filhos, o mano Alex Medeiros e as manas Lana e Zorilda Medeiros, avô de 8 netos e bisavô de 4 bisnetos. Na data de hoje, 5 de novembro de 2014, ‘seu Luiz’ completaria um século de existência.

    Figurinha ‘carimbada’ das conversas, anos mais tarde, entre familiares e amigos de sua época, contam desde a sobrevivência dele, ainda criança, quando foi salvo do fogo provocado por irmãos peraltas mais velhos. Contava minha avó que o tirou às pressas de cima de um fardo de algodão, onde dormia o seu sono de bebê entre as labaredas, durante a faina diária da matriarca dos Cleodon.

    Ainda adolescente levou uma ‘coça’ do meu avô, depois de regressar de uma fugida de casa para tentar seguir o bando de Lampião, quando este passou em solo potiguar, no famoso reide para Mossoró.

    Já rapazote, juntamente com os irmãos mais velhos, ficaria marcado nos bailes da roça, por arranjar porfias e “apagar o candeeiro e derramar o gás”, como cantou o seu xará, o Rei do Baião.

    Aos 21 anos sentou praça no 21º BC – o célebre Batalhão de Caçadores do Exército Brasileiro, quartel, então, situado em Natal, no centro da cidade, onde hoje funciona o Colégio Estadual Winston Churchill.

    O “21”, como meu pai assim o designava, foi o foco e a explosão precipitada do levante comunista, programado para acontecer no dia 27 de novembro a partir do Rio de Janeiro, Recife, Natal e daí partindo para o efeito multiplicador de outras unidades militares, com a participação de militantes civis da causa comunista. Contudo, os ‘apressadinhos de Natal’, por outros motivos esclarecidos no livro do amigo Homero Costa: A Insurreição Comunista de 1935, Natal – O Primeiro Ato da Tragédia -, terminou por antecipar os levantes do Rio de Janeiro (a então capital do Brasil) e do Recife, numa espécie de solidariedade desorganizada, já que segundo outros líderes militares e civis do movimento, a notícia repercutia como rastilho de pólvora país afora: “Os companheiros tomaram Natal e já estabeleceram um governo provisório”. De fato, na noite do dia 23 de novembro, meu pai estava de sentinela numa das guaritas, quando o 1º Sgtº músico, Quintino Clementino, juntamente com o “cabo vermelho”, Giocondo Dias, dominaram o oficial de dia e comandaram, a partir daí, toda a unidade. Segundo o soldado Cleodon, “depois do toque de recolher e de alguns tiros, que logo causaram rumores pela cidade, o oficialato e os praças chegavam curiosos, sem saberem de nada e a gente ia prendendo os que não aceitavam o levante”. Essa e outras informações foram passadas pelo meu pai a Luiz Gonzaga Cortez e outras tantas – com sua visão crítica dos fatos vivenciados -, a Homero Costa, autor do livro mais elucidativo sobre o “Assalto aos Céus”, como já foi designada a aventura natalense de ruptura com o poder constitucional no ano de 1935.

    Depois de um ano e sete meses ‘puxados’ na Casa de Detenção do Recife, foi anistiado e voltou para Natal. Apelidados de “5ª Coluna”, estigmatizados pela aventura bolchevique na ‘esquina do continente’, os remanescentes do motim do “21” ficaram numa situação complicada. Para a maioria da população, eles eram considerados ‘traidores’ e ‘lesas-pátrias’, portanto, mal vistos pela sociedade que vivia sob a ditadura varguista. Sem chances em Natal, se mandou para Currais Novos e daí para o sítio do irmão mais velho em Lagoa Nova. De lá desceu pelo outro lado da Serra de Santana e conheceu uma jovem de 16 anos, amiga da única irmã do clã dos Cleodon, Maria, que vindo sempre de Currais Novos para visitar o irmão em Santana do Matos, incentivada pelo mesmo, começou a “cortar jaca” com a ainda adolescente Francisca das Chagas Pereira, que tinha receio da cor pálida do ex-preso político. Namoraram até 1941, quando casaram, no mesmo período em que o mundo prenunciava o 2º grande conflito armado planetário. Sendo reservista de 1ª categoria desde 1935, meu pai foi convocado para servir novamente o exército, já que no ano de 1942, Getúlio declarou guerra à Alemanha e à Itália, dois dos países do eixo, completado pelo Japão.

    Já às vésperas de embarcar para o front, o ditador Getúlio Vargas suspendeu o embarque dos expedicionários casados, ficando, graças a essa condição civil, a prestar serviço militar na costa do RN, no trecho que distava da Praia do Forte (Natal) às falésias de Barreira do Inferno. Agora seu Luiz já não era mais um “comunista safado” aos olhos da sociedade e sim um pracinha herói, juntamente com tantos de sua geração que doaram a própria vida em defesa da pátria.

    Toda essa experiência marcou para sempre meu velho pai, que hoje completaria cem anos de vida.

    Já no final de sua existência, silencioso e pensativo em sua cadeira solitária de calçada, contemplava todas as tardes o rubor do arrebol e o surgimento de vésper (o planeta Vênus), nas várias bocas da noite que se sucediam imutáveis. O seu olhar profundo e de brilho opaco, como sóis de galáxias que vão sumindo, ainda perdura na minha memória todos os dias e me acompanhará para sempre o seu exemplo de retidão de caráter, de desassombro diante da vida e de bondade.

    – “Soldado Cleodon, presente!”

     

    (GM)


    Nota do SDV ( * ): paródia dos versos iniciais do bolero “Dez Anos”, autoria de R. Hernandez e Adelaide Chiozzo, sucesso absoluto com Emilinha Borba em 1951, mesmo ano em que eu nasci e com os quais minha mãe me ninava.