• DA PLURALIDADE DOS VÍCIOS E HÁBITOS…

    31 de Maio – Dia mundial contra o tabagismo ou a guerra contra o “cigarro caretão”.

     

    UMA CARTA ACERCA DA TOLERÂNCIA, OU: POR QUE NINGUÉM TEM PACIÊNCIA COM OS FUMANTES?

    Blog Ad Hominem / Erick Vasconcelos – O motivo pelo qual os liberais clássicos como John Locke escreveram cartas acerca da tolerância foi porque eles reconheciam que era necessário o mínimo de respeito aos hábitos e crenças das outras pessoas para que uma sociedade pacífica fosse possível.

    A ideia liberal clássica era que todo mundo poderia ter sua casa, sua família, seu trabalho e que, depois de suar durante o dia, poderia entrar na sua propriedade e louvar o seu deus sem ninguém encher o saco.

    Não é à toa que os liberais sempre estiveram na vanguarda de lutas pelos direitos dos negros, das mulheres, dos homossexuais e de outras minorias – porque sabiam que sem uma esfera privada bem delineada em relação ao que é “público”, fatalmente a gente cai em situações sociais de conflito.

    Por exemplo, por conta da intolerância social com os usuários de drogas, o que temos é um combate bizarro a entorpecentes que custa uma bolada e mata milhares todo ano. Também foi assim quando os puritanos resolveram que as bebidas deveriam sumir da vida americana.

    O argumento não é que você, pai de família honrado, respeitável e tradicional, tenha que receber os maconheiros em casa com toda a pompa, mas só que você não vai ficar fazendo barraco quando vir alguém com baseado na rua. Afinal, a vida é do maconheiro, deixa ele.

    Assim, sob o liberalismo, todo o progresso social era no sentido de que os hábitos, mesmo os ruins, são privados, e ninguém tem nada a ver com isso.

    Igualmente, qualquer boçal hoje em dia sabe que o cigarro faz mal, que seu uso excessivo pode causar câncer, além de, segundo as carteiras de cigarro, infarto, impotência, horror, gangrena, malformações fetais, derrame cerebral e todos os males da história (interessantemente, ninguém observa que o cigarro também traz vários efeitos psicológicos positivos, como relaxamento e tranquilidade).

    Só que, apesar de a sociedade já ser bastante bem informada sobre o cigarro, e embora seja um hábito essencialmente privado (apesar do que tenta passar a propaganda exagerada sobre o “fumo passivo”), o tabaco continua sendo demonizado.

    A Anvisa achou de proibir os cigarros com sabor, porque estimulam o fumo e podem levar os jovens a esse hábito objetivamente desprezível.

    Não vou nem tentar argumentar contra isso, a coisa é palpavelmente absurda e qualquer zé neguinho consegue ver que a tendência não é das mais benévolas enquanto a Anvisa continuar baixando decreto dizendo o que 190 milhões de pessoas podem ou não consumir, principalmente em questões banais como o cigarro (e, diga-se, a questão de incentivar ou não o fumo de menores é absurdamente irrelevante e oportunista nesse caso).

    Eu só vou observar que, apesar de várias pessoas de esquerda serem favoráveis à liberação de drogas e à não-criminalização de hábitos privados, os argumentos que eles usam dão munição para os super-burocratas da Anvisa. Enquanto a ideia adotada não for a de John Locke e seus amigos, lá de 1600 e bolinha, vamos continuar recebendo notícias pela manhã de que um dos nossos hábitos foi subitamente proibido e a gente nem viu.


  • “O PODEROSO CHEFÃO”

    ‘Don Luiz Inácio Corleone’ (foto de Wilton Jr – AE)

     

            NINGUÉM ESTÁ ACIMA DA LEI E NINGUÉM PODE TUDO, DIZ AÉCIO SOBRE LULA

    UOL / Camila Campanerut (Brasília) – O senador Aécio Neves (PSDB-MG), principal figura tucana em evento com pré-candidatos a prefeito em Brasília, nesta quarta-feira (30), se disse surpreso com a atitude do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva de pedir ao ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Gilmar Mendes ajuda para adiar o julgamento do mensalão.

    “Não era essa a expectativa. Fica um ensinamento para todos: ninguém está acima da lei e ninguém pode tudo no Brasil, um país que preza a democracia”, disse o tucano.

    Segundo reportagem da revista “Veja”, Lula e Mendes teriam se encontradoem abril. Na ocasião, o ex-presidente oferecera “proteção” ao ministro, que poderia ter o nome citado na CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) do Cachoeira – que investiga os negócios do bicheiro Carlinhos Cachoeira com agentes públicos.

    Em troca, Lula queria uma posição favorável de Mendes para adiar até o ano que vem o julgamento sobre o mensalão.

    O caso do mensalão, que em 2005 levou à renúncia de vários ministros, entre eles José Dirceu, da Casa Civil, e Antônio Palocci, da Fazenda, os mais próximos de Lula na época, deverá ser julgado nos próximos meses pelo Supremo.

    Para o Aécio Neves, o “excesso” deverá ser julgado pela população brasileira. O episódio, na visão do senador, gerou constrangimento aos aliados do ex-presidente.

    Eleições

    Em discurso para os pré-candidatos a prefeito, Aécio disse que deve haver uma unificação do discurso de campanha com relação a temas nacionais, como segurança pública e saúde.

    Em sua fala, que abriu o evento,  o tucano disse que a conjuntura atual do país revela a “mais perversa concentração tributária da história do Brasil”.


  • AS BALAS DO BALEIRO…

    Além de dizer que Lobão e Caetano são midiamaníacos, Zeca Baleiro também afirmou na Revista “Bravo” a respeito de Caetano Veloso: “O cara é uma comadre linguaruda, né?” E tome blá blá blá do Baleiro na mídia. Na foto abaixo, Zeca ostenta a camisa do Maranhão Atlético Clube, um timaço lá da terra dele.

     

                           LOBÃO E CAETANO “SÃO MIDIAMANÍACOS”, DIZ ZECA BALEIRO

    FOLHA.com (São Paulo) – O músico Zeca Baleiro provocou colegas durante o Festival da Mantiqueira, no fim de semana. Pediu um “desconto” para Lobão, pois ele “toma tarja preta”.

    “Ele e o Caetano sofrem do mesmo mal: são mídiamaníacos.”

    Lobão rebate: “Atualmente, não tomo remédio nenhum. Falo isso (que a MPB é ‘uma merda’) há anos”.

    A informação é da coluna Mônica Bergamo publicada na edição desta terça-feira da Folha. A íntegra da coluna está disponível a assinantes do jornal e do UOL, empresa controlada pelo Grupo Folha.


  • FAZENDO A CABEÇA EM PAZ

     

             COMISSÃO DE JURISTAS APROVA DESCRIMINALIZAÇÃO DO USO DE DROGAS

    FOLHA.com / Nádia Guerlenda (Brasília) – A comissão de juristas que discute a reforma do Código Penal no Senado aprovou nesta segunda-feira (28) a descriminalização do uso de drogas.

    As propostas da comissão, consolidadas, devem ser encaminhadas ao Congresso até o final de junho. Apenas após votação nas duas Casas as sugestões viram lei.

    Atualmente o uso de drogas é crime, porém não é punido com prisão. O texto aprovado pela comissão deixa de classificar como crime o uso de qualquer droga, assim como a compra, porte ou depósito para consumo próprio.

    A autora da proposta, a defensora pública Juliana Belloque, afirmou que se baseou na tendência mundial de descriminalização do uso e na necessidade de diminuir o número de prisões equivocadas de usuários pelo crime de tráfico.

    Ela citou reportagem publicada pela Folha que apontou um crescimento desproporcional do aprisionamento de acusados de tráfico desde 2006, quando entrou em vigor a atual lei de drogas: enquanto as taxas de presos por outros crimes cresceram entre 30% e 35%, o número de punidos por tráfico aumentou 110%. A alta se explica, de acordo com especialistas, pela confusão entre usuário e traficante.

    A comissão aprovou uma exceção em que o uso de drogas será crime: quando ele ocorrer na presença de crianças ou adolescentes ou nas proximidades de escolas e outros locais com concentração de crianças e adolescentes.

    Nesse caso, as penas seriam aquelas aplicadas atualmente ao uso comum: advertência sobre os efeitos das drogas, prestação de serviços à comunidade e o comparecimento obrigatório a programa ou curso educativo.

    Para diferenciar o usuário do traficante, os juristas estabeleceram a quantidade máxima de droga a ser encontrada com o acusado: o equivalente a cinco dias de uso. Como a quantidade média diária varia conforme a droga, o texto estabelece que serão utilizadas as definições da Anvisa.

    A comissão também aprovou a diminuição da pena máxima para o preso por tráfico. Hoje são5 a15 anos de prisão e a proposta estabelece5 a10.

    Dos nove juristas presentes de um total de 15 da comissão, apenas o relator, o procurador da República Luiz Carlos Gonçalves, votou contra a descriminalização.

    Para ele, o fato de o usuário não ser punido acabará estimulando que ele seja considerado pela polícia e pela Justiça um traficante, o que aumentaria o encarceramento – exatamente o efeito contrário que a comissão pretende atingir.

    A comissão discute agora qual será o parâmetro para diferenciar o usuário de um traficante e se será permitido, por exemplo, plantar drogas para consumo pessoal.


  • ILMO SR CYRO MONTEIRO (*) E MR JOHN FOGERTY

    Cyro Monteiro nasceu no dia 28 de maio de 1913, no bairro do Rocha, Rio de Janeiro. Lançado por Sílvio Caldas em 1933, no ano seguinte Cyro já fazia sucesso no ‘Programa das Donas de Casa’, da Rádio Mayrink Veiga, batucando sua caixinha de fósforos, criando a marca registrada que o acompanharia durante toda a carreira. Cantava em todas as emissoras da época, ao lado dos grandes nomes da MPB. O seu primeiro sucesso veio em 1937 com o samba “Se Acaso Você Chegasse”, do compositor gaúcho Lupicínio Rodrigues, gravado em 1938. Figura humana de raras qualidades, Cyro até hoje é lembrado por todos que o conheceram (Vinicius de Moraes o chamava de ‘Sr. Samba’). Sua simpatia, bondade e bom caráter abriam-lhe todas as portas durante a bem sucedida carreira, que nem uma enfermidade pulmonar conseguiu interromper. Recuperado, mesmo com voz pequena, manteve a bossa, a divisão e o vibrato, suas características marcantes. Cyro Monteiro faleceu em 13 de julho de 1973. Ouça o grande sambista nesta composição de 1961: http://www.youtube.com/watch?v=cwASTKLd_1E

    John Cameron Fogerty nasceu em Berkeley (Califórnia / E.U.A.) no dia 28 maio de 1945.
    Mais conhecido como o ex-líder da banda Creedence Clearwater Revival, John Fogerty é a voz ponderosa por trás dos hits clássicos da banda, incluindo “Proud Mary”, “Bad Moon Rising”, “Down The Corner”, “Green River”, “Lookin Out My Back Door” e “Who’s Stop The Rain”. Após o fim do CCR em 1972, John Fogerty começou uma bem sucedida carreira solo, ganhando, inclusive, um Grammy na categoria Melhor Álbum de Rock, com seu “Blue Moon Swamp”. Além de cantor e compositor, Fogerty também é excelente guitarrista e exímio gaitista, como demonstra na música “Keep On Chooglin”. Confira no link: http://www.youtube.com/watch?v=rVBMm3xX8wQ&feature=related

     

    Nota do SDV ( * ): nome de música, autoria de Chico Buarque, cujo título integral – “Ilmo Sr Cyro Monteiro ou Receita Pra Virar Casaca de Neném” – é uma resposta de Chico, torcedor do Fluminense, ao flamenguista Cyro, que havia mandado de presente uma camisa do time da Gávea para Sylvia, a primeira filha de Chico.


  • MARCIANITA (*)

    Marcianos ‘sem terra’ protestam diante do jipe-robô da NASA, o “Opportunity”, que faz pesquisa no Planeta Vermelho há 8 anos.

     

                  CIENTISTAS AFIRMAM QUE MARTE TEM ELEMENTOS BÁSICOS DA VIDA

    BBC BRASIL – Novas evidências encontradas em meteoritos sugerem que elementos básicos para o surgimento de vida estão presentes em Marte.

    O estudo descobriu que carbono encontrado em 10 meteoritos, que abrangem mais de quatro bilhões de anos da história marciana, se originou no planeta e não foi o resultado de contaminação na Terra.

    Detalhes do estudo foram publicados na revista Science.

    Mas a pesquisa também mostra que o carbono de Marte não veio de formas de vida.

    Uma equipe de cientistas baseada na Carnegie Institution for Science, com sede em Washington, encontrou “carbono reduzido” nos meteoritos e diz que o elemento foi criado por atividade vulcânica no Planeta Vermelho.

    O carbono reduzido é o carbono que está ligado quimicamente ao hidrogênio ou entre si.

    ‘Química orgânica’

    Eles argumentam que isso é uma evidência “de que Marte realizou química orgânica durante a maior parte de sua história.”

    Líder do estudo, o Dr. Andrew Steele disse à BBC: “Nos últimos 40 anos, procuramos uma piscina do chamado ‘carbono reduzido’ em Marte, tentando descobrir onde e se está lá, perguntando se, de fato, existia”.

    “Sem o carbono, os elementos de construção da vida não podem existir (…) Então, é o carbono reduzido que, com hidrogênio, oxigênio e nitrogênio, compõe as moléculas orgânicas da vida.”

    Ele diz que a nova análise respondeu à primeira pergunta.

    “Esta pesquisa mostra que, sim, o carbono reduzido existe em Marte. E agora estamos nos movendo para o próximo conjunto de perguntas.

    “O que aconteceu com ele (o carbono reduzido), qual foi seu destino, será que deu o próximo passo de criar vida em Marte?”

    O cientista espera que a próxima missão a pousar no Planeta Vermelho – a Mars Science Laboratory, também conhecida como missão “curiosidade”, lance mais luz sobre a grande pergunta.

    “A questão se estamos sós tem sido um grande condutor da ciência, mas ela se relaciona com a nossa própria origem. Se não há vida em Marte, qual a razão? Isso nos permite traçar uma hipótese mais clara sobre por que há vida aqui.”

    Então, será que Steele acha que houve, ou há, vida em Marte?

    Ele ri: “Tragam-me algumas pedras de lá e eu vou te responder.”

     

    Nota do SDV ( * ): Marcianita, sucesso com o quase esquecido Sérgio Murilo, um dos pioneiros do proto-rock brasileiro (mesma época dos irmãos Celly e Tony Campello, Ronnie Cord, Carlos Gonzaga, Demétrius, Erasmo Carlos, Roberto Carlos e Renato e Seus Blue Caps. Somente alguns anos mais tarde surgem na cena roqueira os consolidadores Raul Seixas e Rita Lee).

    Marcianita, gravada por tantos cantores, entre os quais Leno Azevedo, Caetano, Os Mutantes, Gal Costa e Leo Jayme, tem como autores José Imperatore Marcone e Galvarino Villota Alderete, com versão definitiva de Fernando César. Confira, no link, a gravação original (1960) com Sérgio Murilo, contendo elementos surpreendentemente jazísticos: http://www.youtube.com/watch?v=KrxEtqb-bHg


  • “ME ENGANA QUE EU GOSTO!”

     


    A COPA DOS BILHÕES

    Terceiro Tempo / Alex Medeiros (colunista do www.terceirotempo.bol.uol.com.br e redator do www.alexmedeiros.com.br – Enquanto o povo brasileiro aguarda o evento da FIFA, desejoso de que a seleção de Mano Menezes fature o pentacampeonato, o que estamos vendo até agora é um superfaturamento camuflado a estourar o orçamento mês a mês nas faraônicas obras.

    O orçamento inicial dos doze estádios que receberão os jogos em 2014 foi estabelecido previamente em algo abaixo de US$ 4 bilhões, mas a equação todo dia sofre alterações de rumo e os custos finais deverão dobrar com espantosa facilidade. No mínimo.

    O governo federal, através do ministro ‘tapia’, Aldo Rebelo, faz jogo de cena para esconder os constantes aumentos e o já ocorrido estouro do orçamento. As obras vão sofrendo reajustes, permitindo assim que o dinheiro público vire, rápido, lucro privado.

    Para driblar os bestas, inclusive a maioria da imprensa que não questiona nada nas reuniões teatrais da CBF e FIFA com os representantes dos governos estaduais, os atrasos servem para contratação de serviços extras em nome do tal cronograma.

    O remendo emergencial feito nas fuças da sociedade e com a assistência impassível da mídia é justificado pelo discurso cínico de que tudo isso é preciso para evitar a hecatombe de uma Copa do Mundo fracassada nos aspectos organizacional e turístico.

    As constantes visitas de Aldo Rebelo nos canteiros das doze praças, posando de desenvolvimentista de balcão, tem o efeito de minorar a ineficiência generalizada para a conclusão das chamadas obras de mobilidade urbana, cuja maioria não acontecerá.

    Vale tudo no teatro mambembe (com a devida vênia aos artistas verdadeiros do estilo) das arenas e estádios em construção, inclusive a proposta travestida de desaforo, do secretário da FIFA, Jerome Valcke, de sugerir um chute no traseiro do Brasil.

    Vieram, então, os roteiros em forma de cartinhas e e-mails, trocados entre o governo brasileiro e a entidade do “football association”, e logo o comunista Aldo e o liberal Jerome estavam retomando os papéis de amiguinhos do aceleramento das obras.

    É um jogo tão desavergonhado e sujo que a própria FIFA trata de vazar relatórios ameaçadores na imprensa, com o claro objetivo (como uma deixa no palco) de sinalizar para a reação governamental e os discursos retóricos nos comitês das doze sedes.

    No meio de farsa, minha cidade, Natal, também exerce um relevante papel, colocada como aquela mais ameaçada de sair de cena e não participar do grand finale. E aí, cada vez que a Band, a Folha de S. Paulo e a ESPN noticiam o fracasso, os atores locais correm para a beirada do palco.

    A governadora Rosalba Ciarlini (DEM) tem sido uma espécie de Meryl Streep às avessas, cumprindo direitinho o script da enganação. Merece uma estatueta de Ricardo Teixeira pelo conjunto da obra, sem falar – obviamente – dos aplausos dos puxa-sacos.

    Sempre que o noticiário nacional destaca o baixo percentual de execução das obras no “Elefante das Dunas”, lá vai a governadora e grande elenco em romaria para o canteiro da Construtora OAS para desmentir em clima doméstico o jornalismo do Sudeste.

    Político potiguar é um especialista na prática de iludir os de casa, mesmo que sua reputação e currículo já não valha um dólar do caixa 2. O negócio é preservar o voto do idiota conterrâneo e que se exploda o escrúpulo diante da vitrine do país.

    Esta semana, saiu na imprensa de São Paulo que as obras em Natal só agora teriam chegado aos 15%, o que levou logo a governadora a reunir os jornalistas no local da futura arena para exibir os 23% garantidos pelos engenheiros da empresa baiana.

    E cada vez que sai um desmentido, aqui ou em Manaus, abrem-se as cortinas para um novo ato de estouro do orçamento público. Liderados pela presidente Dilma Rousseff, os governos regionais estão bancando a mais dispendiosa Copa do Mundo. Tudo em nome do jogo da FIFA e seus parceiros daqui e dalhures.

    Acesse o site do colunista, www.alexmedeiros.com.br, siga no Twitter @alexmedeiros59


  • “O POETA VAQUEIRO” (*)

    O potiguar Zé Praxédi, autor da primeira biografia de Luiz Gonzaga (escrita em ‘versos matutos’), esquecido em plena comemoração do centenário do Rei do Baião.

     

    DOUTÔ INTÉ ASTRO DIA

    Doutô inté astro dia
    basta o sinhô precisá
    dum criado às suas órde
    na Serra do Jatobá.

    Pro armoço tem galinha
    tem quaiada pro jantá
    água cheirosa de tanque
    pra vosmecê se banhá.

    Leite quente ao pé da vaca
    quano o dia amanhecê
    café torrado no caco
    de quando invêz pra você.

    Aguardente potiguá
    caso goste de bebê
    capim mimoso verdim
    pra seu cavalo comê.

    Pra vosmecê fazê lanche
    mé de abêia com farinha
    tem da fonte milagrosa
    água fria na quartinha.

    Pra vosmecê se deitá
    uma rede bem arvinha
    mas leve tomém a muié
    pois a que tem lá é minha!

     
    (Poema enviado pelo nosso correspondente do “Cabrobó News”, o cabra Rocas Quintas, que elegeu o autor deste poema como seu patrono literário).

     

    Nota do SDV ( * ): epíteto de José Praxedes Barreto, poeta, compositor, violeiro e cantor natural de Cerro Corá (RN), nascido em 15 de janeiro de 1916 na fazenda “Espinheiro”, pertencente na época à jurisdição de Currais Novos. Aos 16 anos já curtia vaquejada, declamando versos matutos sobre as ‘Pegas de Boi’ e sobre a vida sertaneja.
     
    Em 1950, “Zé Praxédi” (adota esta grafia para atuar artisticamente), a esposa e um filho migram para o Rio de Janeiro, onde começa a participar da vida artística carioca declamando os seus ‘poemas matutos’ em programas radiofônicos, feiras livres e teatros.

    No ano seguinte participa de um recital de poesia sertaneja patrocinado pelo conterrâneo Café Filho, vice-presidente da República, e pela colônia norte-rio-grandense no Teatro Copacabana. O recital tem a participação de Luiz Gonzaga e dos músicos que formavam o chamado terno de zabumba do Rei do Baião, Catamilho (zabumbeiro) e Zequinha (triângulo).
     
    A partir daí, Zé Praxedes faz amizade com Luiz Gonzaga e estabelece laços de compadrio. Em 1952 é publicado o seu primeiro livro, “Luiz Gonzaga e Outras Poesias”, escrita em ‘versos matutos’. Esta obra de Praxedes é considerada a biografia pioneira do Rei do Baião, prefaciada por Luís da Câmara Cascudo. Entretanto, permanece ignorada e quase desconhecida, mesmo no ano em que se comemora os cem anos de Luiz Gonzaga. 

    Em 1960, Zé Praxedes publica o seu segundo livro, “O Sertão é Assim”. Dez anos depois é publicado o seu terceiro e derradeiro livro, “Meu Siridó”.

    Praxedes ainda participou do filme “Virou Bagunça”, de Watson Macedo e Oswaldo Massaini, juntamente com artistas famosos como Nádia Maria, Emilinha Borba, Linda Batista, Trio Irakitan, César de Alencar, Carlos Gonzaga, Zezé Macedo e Abelardo Chacrinha, que seria conhecido mais tarde como “O Velho Guerreiro”.

    Praxedes também foi parceiro de Zé Gonzaga, irmão do rei do baião, nas músicas ‘Batisterio’, ‘Galope À Beira Mar’ e o belo rojão “Encontro Com Lampião”, além de outras canções com diversos parceiros musicais.

    O poema acima, raro, era declamado nas rádios de Natal no início dos anos 60 pelo próprio Praxedes e também pelo radialista Zé de Souza, admirador do bardo matuto, nas ondas da Emissora de Educação Rural de Natal.

    Zé Praxedes faleceu em 1983, no Rio de Janeiro, aos 67 anos.

     
    *****


    No link, ouça “Encontro com Lampião”:  http://www.youtube.com/watch?v=qZaqvxFlgD8


    Fonte de consulta
    : site Museu Fonográfico Luiz Gonzaga (Campina Grande) e texto do pesquisador paraibano residente em Mossoró, Kydelmir Dantas. No mais, a fonte de minha própria memória como ouvinte inveterado do rádio nos anos 50 e 60, em plena infância e adolescência, na capital do “Errigenê”.


  • TINHA UM TAPETE NO MEIO DO CAMINHO…

    “Caminho Carmim” – Rua Djalma Farias, bairro do Torreão, Recife, no rumo da venta do meu trabalho / Foto: Gracorisco (22 de maio de 2012).

     

    ROUGE CARMIM

    Meu amor tem um beijo guardado pra mim
    E a cor do batom é vermelho carmim.

    Meu amor tem dez dedos cravados em mim
    Que me rasga, me arranha e me deixa assim.

    Assim que eu te vi muito louca
    Olhei tua boca e ficamos a fim
    A fim de fazer um pecado
    A cor do pecado é rouge carmim.


    (Alceu Valença)

     

    P.S: para minha Pequenita e pronto!


  • A ALEGRIA DO MENINO

    O ‘boy’ Garrincha,”O Gênio das Pernas Tortas” e “A Alegria do Povo”, aos 19 anos, no início da carreira de jogador profissional pelo Botafogo de Futebol e Regatas (1953). Segundo Ruy Castro, autor do livro Estrela Solitária, no primeiro treino pelo Glorioso, Nilton Santos, “A Enciclopédia do Futebol”, era o marcador de Mané: quando aquele ponta novato dominou a bola e parou para esperá-lo, Nilton partiu tranqüilo para desarmá-lo. Tranqüilo até demais, porque quando se deu conta, já havia sido driblado para fora. Correu atrás dele, e quando emparelharam, o ponta freou cantando os pneus. Ficaram de novo frente a frente. Nilton entrou duro para assustá-lo, mas foi driblado outra vez, e do mesmo jeito. Em outra jogada, minutos depois, o pontinha cometeu a suprema indelicadeza e enfiou-lhe a bola entre as pernas. Até então, Nilton Santos nunca permitiria tal desfeita a ninguém”.

     

    O ANJO ME SORRIU

    Para Luiz Cleodon (in memorian) e Graco Medeiros.


    Alex Medeiros /
    www.alexmedeiros.com.br ( * ) – Eu tinha apenas nove anos em 1968. Meu irmão amava os Beatles e os Rolling Stones e eu adorava os artistas da bola, como Pelé, Garrincha, Alberí, Pancinha e Icário. Os três últimos, craques dos clubes da minha Natal; ABC, América e Alecrim, respectivamente.

    Eram dias felizes e eu buscava a magia das brincadeiras improvisando futebol com tampinhas de garrafas e caixas de fósforo, uma alternativa à insuficiência financeira da família que não podia dar-se ao luxo de comprar brinquedos fora do período natalino.

    No rádio valvulado de última geração, eu ouvia os jogos do campeonato local, nas narrações impecáveis de Roberto Machado ou Hélio Câmara. Um dia anunciaram um amistoso entre Alecrim e Sport do Recife; meus olhos brilharam, o coração gelou.

    Pelo que pude entender, era um jogo festivo e beneficente com a presença dele, o mágico da camisa 7 do meu Botafogo; o gênio que encantou o mundo em terras da Suécia, em 1958; o passarinho que fez verão sozinho nos campos do Chile, em 1962.

    Num esforço econômico bem próprio, meu pai deu o dinheiro dos ingressos e as orientações ao meu irmão adolescente, para que em nenhuma hipótese trocasse a arquibancada coberta por guloseimas. Para não me expor no cimento a céu aberto.

    Natal era só um pedacinho de um Brasil em convulsão política, deslocado da conjuntura das passeatas estudantis, das greves de soldados e marinheiros, do jogo ideológico “militares versus militantes”. Alheio a tudo, eu queria ver os dribles de Garrincha.

    Acordei naquele dia com os pés em nuvens de alegria, aquela mesma emoção que brotava dos pés do ídolo e invadia o coração das multidões em festa. Um radinho de pilha espalhou pelo ônibus “roda pela vida afora e põe pra fora essa alegria…”

    No meu entendimento de menino, o sucesso nacional de Wilson Simonal naquele ano, “Sá Marina”, tinha uma relação com o futebol e mais ainda com o Mané, por sinal amigo do popular cantor. “Dança que essa gente aflita se agita e segue no seu passo”.

    Meu mundo era colorido, como pintava a geração hippie na moda da Jovem Guarda, feito a explosão das torcidas e as capas das revistas em quadrinhos; era como se cada manhã eu acordasse dentro de um filme e fizesse do cotidiano um seriado de TV.

    No rumo do pequeno estádio Juvenal Lamartine, eu só pensava em Garrincha; a cabeça era um caleidoscópio das imagens construídas a partir das narrativas que eu ouvia sobre ele; só faltava uma trilha sonora de Buddy Kaye, como na série “Jeanne é um Gênio”.

    Minha satisfação era parte da felicidade geral de uma nação que ao amar um anjo torto esquecia os diabos do cotidiano, como dissera Carlos Drummond de Andrade: “Foi um pobre e pequeno mortal que ajudou um país inteiro a sublimar suas tristezas”.

    Garrincha consagrou um povo e deixou para terceiros as glórias e os registros históricos. Porque ninguém foi maior do que ele em Copas do Mundo. Estraçalhou defesas em 1958 e ganhou a taça de 1962 com dribles, gols e passes de mágica.

    Sempre que ouço, repetidas vezes, a voz de Moacir Franco em sua Balada nº 7 aflora no peito e na face o menino que eu fui: “Cadê você / cadê você / você passou / no vídeo tape do sonho / a história gravou”. Lágrimas rolando como bolas de saudade.

    E é na saudade dos dribles gravados que eu sei que o gênio inocente jamais passará, comprovando o prognóstico do velho mestre João Saldanha: “Nos próximos 400 anos, sempre que alguém falar em futebol vai ter que falar no Mané Garrincha”.

    Mané será sempre um livro inacabado, aberto em folhas novas para que sua história vá ganhando capítulos “ad perpetuam”. O futebol todo dia se manifesta em coisas dele, como no grito de “olé”, nas faixas de “fair play”, nos treinos do jogo do “bobo”.

    Foi no México, driblando marcadores do River Plate, que Mané fez a arquibancada emitir o grito das touradas; foi diante do zagueiro Pinheiro, caído em campo, que ele atirou a bola para fora, chamando o atendimento médico do Fluminense.

    Com o amigo e compadre Nilton Santos, num jogo épico contra o Flamengo, resolveu coroar a goleada botando na roda um zagueiro potiguar e outro cearense. Surgiu então a brincadeira do “bobo” que os jogadores até hoje brincam durante o aquecimento.

    Era um louco e era um deus, na expressão de Sêneca; “não há grande gênio sem um toque de loucura”. As asas de Hermes no voo rasteiro em zigue-zague. Nos versos de Vinicius de Moraes, a natureza do seu encanto: “Feliz, entre seus pés – um pé de vento”.

    1968 – 4 de fevereiro e uma tarde mágica. Garrincha, Garrincha, Garrincha, gritei olhando o ídolo na camisa esmeralda. Num lançamento, chegou tarde na bola, perdida na lateral. Parou, mãos na cintura, um olhar para cima, um sorriso para o garoto que gritava. Garrincha, um passarinho, não passará até que todos passem.

     

    Nota do SDV ( * ): Alex Medeiros é jornalista, escritor e publicitário. Mora em Natal (RN) e também é o meu ‘irmão mais moço’.